Malafaia, Homossexualidade, PLC 122, Bíblia e outras coisas...


Antes de mais nada, gostaria de dizer que as opiniões contidas no artigo abaixo são de caráter estritamente pessoal e dizem respeito ao meu conhecimento sobre os assuntos em questão. Fique à vontade para concordar ou discordar do texto e também expressar seu ponto de vista, afinal vivemos em sociedade e, para mim, uma sociedade de verdade só se constrói através do diálogo.


Muito tem se falado nas redes sociais (virtuais e físicas) sobre a entrevista que o pastor Silas Malafaia, fundador da igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, concedeu à repórter Marília Gabriela no domingo passado (03/02) em seu programa De frente com Gabi. Antes de emitir minha opinião a respeito, assisti não só a entrevista na íntegra, mas também outros vídeos de resposta ao pastor, além de vários textos que estão circulando na Internet.

Irei me deter, basicamente, à parte da entrevista em que Malafaia fala sobre os homossexuais, uma vez que não me interessa quanto ele tem em sua conta bancária, nem o que fez para conseguir os bens que possui. Pois, se os obteve de alguma forma ilícita, cabe às autoridades competentes investigá-lo e condená-lo, ou não, se for o caso.

No início do segundo bloco do programa, Silas faz referência à alguns conceitos e pesquisas da área da genética sobre a questão da homossexualidade. Sobre esta parte, nada melhor do que alguém da área para responder e contestar quase que inteiramente o que foi declarado pelo pastor no programa de entrevistas. Aos que ainda não viram, recomendo que assistam ao vídeo abaixo.



Em seguida, Silas Malafaia entra na questão dos direitos reivindicados pelos homossexuais no Projeto de Lei da Câmara 122/2006, de autoria da ex-deputada federal Iara Bernardi. Em relação a isso, recomendo este vídeo (não vou incorporá-lo ao post por ser muito longo, mas vale a pena assistir) do advogado Paulo Iotti rebatendo as declarações do líder religioso, uma vez que Silas baseia sua argumentação em trechos que não estão mais presentes no atual texto do PLC 122.

Ainda nesta parte da entrevista, Malafaia diz que a Constituição atual garante a igualdade de direitos entre todos os cidadãos do nosso país, o que realmente deveria acontecer, mas sabemos que na prática, infelizmente, não ocorre. Por isso a necessidade de atualizar não só este trecho da nossa carta magna, mas inúmeros outros.

Em resumo, acredito que não só os homossexuais, mas todo cidadão tem o direito de reivindicar suas convicções, desde que não viole o direito dos outros, perca a razão e parta para a ofensa, como no episódio relatado pelo próprio pastor, em que seu nome foi escrito com uma suástica. Em todo movimento social, há sempre pessoas mais radicais e que não medem seus atos e palavras, ou se acham no direito de fazer o que bem entendem para afirmar sua opinião. Sou totalmente contra este tipo de atitude, seja ela de quem for. São pessoas como estas que acabam por deslegitimar a essência de vários protestos (vide atos de vandalismo na #RevoltaDoBusão em Natal no ano passado).

Chegamos, então, à parte em que Malafaia se baseia na Bíblia para fundamentar seus argumentos, onde me sinto bem mais à vontade para argumentar, por minha experiência como missionário. Como Cristão, acho que o pastor deveria valorizar um pouco mais os Evangelhos e a mensagem transmitida por Jesus. Não que os outros livros da Bíblia estejam ultrapassados e também não tenham seus ensinamentos, porém alguns conceitos já foram superados há séculos (sobretudo os do Antigo Testamento, readaptados pelo próprio Cristo).

Logo de cara Silas diz que a Bíblia dá autoridade para condenar os pecados. Jesus nos mostra exatamente o contrário. Em Mateus 7, 3-4 Ele nos fala através de uma parábola "3. Por que olhas a palha que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu? 4. Como ousas dizer a teu irmão: Deixa-me tirar a palha do teu olho, quando tens uma trave no teu?" - Com isso Jesus afirma que não nos compete apontar e condenar os pecados de ninguém, mas somente a Deus. E mesmo o próprio Deus não quer condenar ninguém, mas antes fazer com que os pecadores O descubram em Sua infinita misericórdia e deixem para trás, por conta própria, tudo que não provém d'Ele.

Jesus não fazia distinção entre as pessoas, ao contrário, acolhia os socialmente excluídos mostrando-os o infinito amor do Pai, ainda que os Fariseus condenassem tais atos. Leprosos, paralíticos, samaritanos, prostitutas, cobradores de impostos: a todos Cristo ouviu e mostrou o Caminho a seguir, sem pré-julgar nenhum deles ou condená-los por seus atos.

Tanto que no versículo 21 de Mateus 7, Cristo nos adverte "Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus". E qual a vontade do Pai? Jesus nos fala em Marcos 12, 30-31: "30. Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças. 31. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior que estes não existe".

Dando sequência à entrevista, Gabi questiona Malafaia sobre a capacidade de um casal gay criar um indivíduo e torná-lo igual a qualquer outro com seus direitos e deveres, ao que o pastor responde que não acredita nessa possibilidade. Então me pergunto: se há inúmeros pais e mães solteiros(as) que criam seus filhos e garantem sua educação e dignidade como qualquer outro cidadão, dando total suporte e valores como Família, porque um casal do mesmo sexo não tem a capacidade de fazê-lo igualmente?

Em seguida o próprio Silas diz como agiria caso tivesse um filho homossexual. Marília Gabriela entra no embate, até que o pastor solta de forma irônica a polêmica frase, que tornou-se meme na rede: "Eu amo os homossexuais como amo os bandidos, amo assassinos", colocando a homossexualidade em pé de igualdade com essas outras práticas. Fica subentendido que o líder religioso criminaliza o amor neste caso pelo simples fato de não provir da relação entre um homem e uma mulher.

Até mesmo a Igreja Católica, taxada de conservadora por não ser favorável à união matrimonial entre pessoas do mesmo sexo, deixa claro que não se pode excluir socialmente as pessoas por sua condição sexual, como podemos observar no Youcat nos números 415 e 65: "415 [...] A Igreja acolhe sem reservas as pessoas que se sentem homossexuais e rejeita qualquer forma de discriminação. 65 [...] Ela deve respeito e amor a todas as pessoas, independentemente da sua orientação sexual, por que são todas respeitadas e amadas por Deus".

Quem pode dizer, então, que os gays não herdarão o Reino dos Céus, se o próprio Deus os acolhe e os ama sem distinção? Como o líder de uma igreja cristã pode alimentar a discórdia entre héteros e homossexuais, atentando contra o mandamento de amor deixado por Jesus Cristo? Parece-me que o pastor Silas Malafaia não conseguiu compreender integralmente a mensagem deixada pelo Filho de Deus.

Finalizo o post deixando como reflexão uma imagem que encontrei enquanto estava realizando pesquisas para escrever este artigo. Até mais e fiquem com Deus!