Ainda nesta parte da entrevista, Malafaia diz que a Constituição atual garante a igualdade de direitos entre todos os cidadãos do nosso país, o que realmente deveria acontecer, mas sabemos que na prática, infelizmente, não ocorre. Por isso a necessidade de atualizar não só este trecho da nossa carta magna, mas inúmeros outros.
Em resumo, acredito que não só os homossexuais, mas todo cidadão tem o direito de reivindicar suas convicções, desde que não viole o direito dos outros, perca a razão e parta para a ofensa, como no episódio relatado pelo próprio pastor, em que
seu nome foi escrito com uma suástica. Em todo movimento social, há sempre pessoas mais radicais e que não medem seus atos e palavras, ou se acham no direito de fazer o que bem entendem para afirmar sua opinião. Sou totalmente contra este tipo de atitude, seja ela de quem for. São pessoas como estas que acabam por deslegitimar a essência de vários protestos (vide atos de vandalismo na #RevoltaDoBusão em Natal no ano passado).
Chegamos, então, à parte em que Malafaia se baseia na Bíblia para fundamentar seus argumentos, onde me sinto bem mais à vontade para argumentar, por minha experiência como missionário. Como Cristão, acho que o pastor deveria valorizar um pouco mais os Evangelhos e a mensagem transmitida por Jesus. Não que os outros livros da Bíblia estejam ultrapassados e também não tenham seus ensinamentos, porém alguns conceitos já foram superados há séculos (sobretudo os do Antigo Testamento, readaptados pelo próprio Cristo).
Logo de cara Silas diz que a Bíblia dá autoridade para condenar os pecados. Jesus nos mostra exatamente o contrário. Em Mateus 7, 3-4 Ele nos fala através de uma parábola "
3. Por que olhas a palha que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu? 4. Como ousas dizer a teu irmão: Deixa-me tirar a palha do teu olho, quando tens uma trave no teu?" - Com isso Jesus afirma que não nos compete apontar e condenar os pecados de ninguém, mas somente a Deus. E mesmo o próprio Deus não quer condenar ninguém, mas antes fazer com que os pecadores O descubram em Sua infinita misericórdia e deixem para trás, por conta própria, tudo que não provém d'Ele.
Jesus não fazia distinção entre as pessoas, ao contrário, acolhia os socialmente excluídos mostrando-os o infinito amor do Pai, ainda que os Fariseus condenassem tais atos. Leprosos, paralíticos, samaritanos, prostitutas, cobradores de impostos: a todos Cristo ouviu e mostrou o Caminho a seguir, sem pré-julgar nenhum deles ou condená-los por seus atos.
Tanto que no versículo 21 de Mateus 7, Cristo nos adverte "
Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus". E qual a vontade do Pai? Jesus nos fala em Marcos 12, 30-31: "
30. Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças. 31. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior que estes não existe".
Dando sequência à entrevista, Gabi questiona Malafaia sobre a capacidade de um casal gay criar um indivíduo e torná-lo igual a qualquer outro com seus direitos e deveres, ao que o pastor responde que não acredita nessa possibilidade. Então me pergunto: se há inúmeros pais e mães solteiros(as) que criam seus filhos e garantem sua educação e dignidade como qualquer outro cidadão, dando total suporte e valores como Família, porque um casal do mesmo sexo não tem a capacidade de fazê-lo igualmente?
Em seguida o próprio Silas diz como agiria caso tivesse um filho homossexual. Marília Gabriela entra no embate, até que o pastor solta de forma irônica a polêmica frase, que tornou-se meme na rede: "
Eu amo os homossexuais como amo os bandidos, amo assassinos", colocando a homossexualidade em pé de igualdade com essas outras práticas. Fica subentendido que o líder religioso criminaliza o amor neste caso pelo simples fato de não provir da relação entre um homem e uma mulher.
Até mesmo a Igreja Católica, taxada de conservadora por não ser favorável à união matrimonial entre pessoas do mesmo sexo, deixa claro que não se pode excluir socialmente as pessoas por sua condição sexual, como podemos observar no
Youcat nos números 415 e 65: "
415 [...] A Igreja acolhe sem reservas as pessoas que se sentem homossexuais e rejeita qualquer forma de discriminação. 65 [...] Ela deve respeito e amor a todas as pessoas, independentemente da sua orientação sexual, por que são todas respeitadas e amadas por Deus".
Quem pode dizer, então, que os gays não herdarão o Reino dos Céus, se o próprio Deus os acolhe e os ama sem distinção? Como o líder de uma igreja cristã pode alimentar a discórdia entre héteros e homossexuais, atentando contra o mandamento de amor deixado por Jesus Cristo? Parece-me que o pastor Silas Malafaia não conseguiu compreender integralmente a mensagem deixada pelo Filho de Deus.
Finalizo o post deixando como reflexão uma imagem que encontrei enquanto estava realizando pesquisas para escrever este artigo. Até mais e fiquem com Deus!